
Era uma vez uma menina loirinha, de uma candura indescritível, cuja idade ainda só tem um algarismo.
Tímida, doce, dona de um sorriso meio apagado, que teima em esconder algures entre o lábio inferior e os dentinhos que o mordem, como se quisesse guardar a gargalhada só para ela.
Abeirou-se da minha secretária, de olhos postos no chão e sussurrou:
- O meu paizinho teve um acidente de mota… foi um bocadinho castigo… já está em casa, mas anda aflitinho.
Não disse nada, passei-lhe a mão pelos cabelos e deixei-a continuar:
- O meu paizinho sofre da cabeça e não quer tomar os remédios. Já lhe disse: “Ó pai, não deites os remédios na sanita que eles fazem-te falta!” e ele ralhou-me muito… também ralhou muito com a minha mãe… fartei-me de chorar.
O sorriso nunca rompeu, mas as lágrimas, essas jorraram imediatamente. Levantei-lhe o queixo com um dedo, olhei-a nos olhos e disse-lhe:
- Fizeste bem em pedires ao teu papá para tomar os comprimidos. Foste muito valente! Se um dia ele se curar, vai ver a filha maravilhosa que tem… o teu papá e a tua mamã têm muita sorte por te terem sabias?
Limpou as lágrimas com um lencinho de papel, ajeitou os óculos, fungou e segredou-me:
- Sabe é que eu gosto muito do meu paizinho. – chorou outra vez.
A aula decorreu normalmente, os colegas nem se aperceberam da nossa conversa. Ela fez umas fichas e parecia ter esquecido o assunto.
Quando me preparava para sair senti uma mão no ombro, olhei para trás, ela deu-me uma festinha no rosto, sorriu com um sorriso rasgado, de orelha a orelha e disse baixinho:
- Obrigada!
Eu não tinha feito nada, só a tinha ouvido! Ela seguiu com um sorriso luminoso e eu mordi o lábio inferior e pisquei os olhos com muita força, numa tentativa de guardar as lágrimas só para mim.

























3 Comentários
credo… faltam-me as palavras certas para comentar.
Os mais velhos, com o passar do tempo, agem como crianças e essa menina fez o que o coração manda.
Você a apoiou, assim como ela fez com seu querido pai.
Boa semana
Também eu!