Conversas do Outro Mundo
De Daniela Mann on Dez 4, 2007 in Comportamentos
Foi no outro dia, na sala de espera do Centro de Saúde que ouvi esta conversa hilariante, enquanto aguardava pela minha vez.
Estavam dois senhores de meia idade, (cerca de 60 anos), acompanhados pelas respectivas esposas, a deitar conversa fora e, a certa altura, começam a falar de mortos e desta “inovação que há agora” que é cremar o pessoal!
- Isto é tudo uma ladroagem! Eles metem os mortos para dentro do forno, depois vão lá com uma pá, bazam um bocadito de cinza para cada vasilha e às tantas as famílias pensam que têm ali os restos da pessoa e na volta têm mas é um bocado de umas três ou quatro, ou mais! - afirma um deles convicto e indignado.
O outro esboça um sorriso e mete mais lenha à fogueira:
- E isso é quando calha um bocado da pessoa, pode calhar a ser só cinza das tábuas!
- Quais tábuas? Aquilo depois da família sair o caixão fica mas é para outro que eles ali não desperdiçam nada!
E mete-se a senhora de um deles na conversa, enquanto o marido limpa o suor de irritação com um lenço azul claro de tecido que puxou do bolso interior do casaco:
- Ah mas o pior é a roupa! A gente veste o morto com fato bom que se vê que é bom e caro e essa gente é bem capaz é de os mandar ao forno todos nus e depois vendem o fato! Como é que a gente sabe se o falecido foi de fato? Eles só nos dão as cinzas no pote!!! - nem vale a pena dizer que a senhora gesticulava energicamente enquanto expressava a sua indignação, ao ponto de ruborizar.
Fez-se um momento de silencio que foi interrompido pelo primeiro senhor:
- Sei de um gajo que lhe morreu não sei quem no estrangeiro, também lhe mandaram as cinzas num vasico sem jeito nenhum, aquela gaita partiu-se no avião, depois meteram aquilo para dentro de uma urna pequenininha para lhe fazerem o enterro e assim foi, com cinza, o vaso aos bocados, foi assim… isto tem algum jeito? E só não deu bronca porque a família já estava tão coisa com a tristeza que olhe… Este gajo ainda trabalhou comigo.
- O que morreu? - perguntaram curiosos.
- Não o outro. Isto é tudo um negócio para enganar as pessoas e fazer pouco das pessoas… olhe nem sei que diga! Não há respeito nenhum é o que é! E ninguém diz nada, ninguém faz nada e anda a malta a pagar impostos para estas vergonhas!
- Mas você já esteve lá fora? - como se esta informação fosse mesmo muito importante para vida deles!
- Muito ano… no Canadá.
- Pois eu já estive em França e na Suiça com a minha senhora, não foi?
- Foi! - concordou ela.
E pronto, a partir daqui o tema da conversa passou a ser a infinidade de empregos e biscates que estes senhores tiveram lá fora, mas aquela dos crematórios ia-me dando uma síncope cardíaca, tal foi o esforço que fiz para não me partir a rir!
