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Démodé

Os meus avós maternos foram os donos de uma grande sapataria, durante décadas. Era a mais conceituada da cidade. Nos seus tempos áureos estava sempre cheia, como se fosse de bom tom comprar qualquer coisa na nossa loja.

Eu era muito pequena, mas lembro-me de uma frase que toda, ou quase toda a gente dizia:

“Quero uns sapatos bons, bonitos e baratos! Mas traga-me bons para eu não ter que andar sempre a comprar!” - sublinhavam.

As pessoas ainda valorizavam o bom e a durabilidade e sabiam que era possível encontrar bom e bonito.

Posteriormente, os meus pais deram continuidade ao negócio. Já adolescente, lembro-me de ajudar a atender os clientes e de testemunhar a mudança de discurso:

“Quero uns sapatos não muito caros!”, “Olhe estes aqui, são todos em pele!” - diziamos nós, ao que os clientes respondiam: “Isso não interessa, também não é para durar que a moda passa num instante e depois tenho pena de os deitar fora!”

Houve tempos em que se estimavam os sapatos e as roupas, para que durassem muito tempo… Os sapateiros e as costureiras não tinham mãos a medir para garantirem a durabilidade de cada peça que lhes chegasse às mãos.

Na verdade, as pessoas até tinham um certo orgulho em partilhar à quantos anos tinham as peças de roupas que traziam no corpo!

“Que lindo casaco! Onde compraste?”

“Olha, olha, já foi da minha mãe… só lhe mudei os botões! Se queres que te diga, ela até já o tinha herdado de uma tia que lho emprestou para levar ao casamento daquela minha prima que foi para o Canadá, agora faz-lhe as contas! Este casaco deve ter uns 30 anos pelo menos!”

Hoje em dia é mais ou menos assim:

“Que lindo casaco! Onde compraste?

“Olha, ontem perdi-me nas compras, entrei no El Corte Inglés e não medi a gastos. É de marca, olha aqui!”, (independentemente de ser na mesma o casaco da mãe, com os botões mudados e um crocodilo Lacoste arrancado de um fato-de-treino velho e cosido às pressas).

Até que ponto, esta “cultura do descartável” não se instalou nos relacionamentos? Até que ponto temos negligenciado as pessoas importantes da nossa vida em detrimento das “populares” que vão aparecendo como furacões de futilidade e ilusões, deixando para trás a destruição de laços afectivos realmente importantes…

E quantos de nós não sentimos que passámos a ser démodé na vida de algumas pessoas?

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