O Drama dos Traidores

CasamentoA traição vai além do egoísmo, sendo na maioria das vezes uma expressão da necessidade de controlar.

Não me refiro àquele tipo de traição que caracteriza o “queixinhas”, o quadrilheiro, ou mesmo o “bufo”, que movido pelo medo ou pelo interesse pessoal, descobriu os segredos daqueles a quem chama amigos, mas à traição do casal. Maridos que traem as esposas e vice-versa.

A teoria da crise da meia idade cai por terra, na medida em que muitas traições começam logo na despedida de solteiro. Aliás, todo aquele que é viciado em trair, até já nem era fiel durante o namoro.

Mas será que existe mesmo alguém viciado em trair? Será possível que a traição também se enquadre no quadro das adições? Claro que sim! A adrenalina da conquista, aquela sensação de domínio do “jogo”, da capacidade de manter uma vida dupla, da pessoa sentir que é o “rei do mundo” por uns tempos, a sede pelo elogio constante e a busca pela validação alheia, tudo isto é altamente viciante.

Há até quem não saiba viver sem trair. É como um apelo enervante que empurra o individuo para mais um flirt efémero e que ele sabe que é efémero, mas que se não corresponder, sentir-se-á dominado por crises de ansiedade, como se de outra droga qualquer se tratasse.

O traidor não é feliz. A pessoa que trai sabe que carrega um legado de destruição emocional. Quer o que causou na vida de outros, como o que infligiu a si próprio, não só pela culpa e pelos remorsos, como pelo facto de usar a paixão e o amor como escudos protectores para o seu próprio vazio emocional.

O traidor nunca se entrega ao amor, nem deixa que o verdadeiro amor lhe sare as feridas. Ele usa-se do que pensa ser amor, através das pessoas que atrai à sua vida, mas na verdade, nem as deixa chegar suficientemente perto para que o ajudem, nem se entrega completamente por medo da rejeição, tal e qual como quem afasta o braço ensanguentado de um algodão embebido em álcool que se aproxima.

Ao contrário da fama que carrega, o traidor não é um pinga-amor, mas alguém amedrontado que até detesta trair e que se detesta por saber que tem destruído as pessoas que mais o amaram e que a ele se têm dedicado.

Se pudesse escolher, preferia não ser o “herói” do grupo que o elege como o mais safado e com certeza que trocava  tudo isso por alguma paz de espírito. Tanto é que ele sabe que nem os elogios do grupo de “amigos” que o apontam como referência entre os homens (mas que na verdade não o aconselhariam como companhia a nenhuma das mulheres das suas famílias), nem as conquistas femininas que lhe preenchem o currículo, o conseguiram aliviar do peso no peito nem do nó na garganta que o afligem todas as manhãs quando se olha ao espelho.

Só a pessoa que semeia uma herança de alegria é que pode encontrar paz espírito. Não há como sentir dignidade no meio de atitudes indignas. Não há como descansar por cima do sofrimento dos filhos e conjuges…

Não tem a ver com deixar de amar uma pessoa a partir de certa altura, tem a ver com a insistência em manter uma família amarrada ao egoismo de um e ainda destruir com falsas expectativas outras vidas igualmente sedentas por sossego. Não há cura para a traição a não ser fora dela.

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