Médicos do Domicílio
De Daniela Mann on Mai 9, 2006 in Comportamentos
Não há senhora que se preze que não conheça meia dúzia de remédios caseiros que arrumam qualquer clínica hospitalar a um canto! “Mãe, estou com dores de garganta!”. Esta, assume imediatamente um ar sério, aconchega o polegar ao queixo, estica o indicador até à ponta do nariz, direcciona o olhar para um ponto algures entre o rodapé superior e o tecto e começa a pensar alto:
“Tens que beber chá de menta com…duas colheres de mel e meio limão espremido, só não sei se também ponha as cascas? Mas se calhar ponho as cascas porque assim atacamos já o vírus... Bem, mas o jantar é daqui a meia hora e como é massa de atum com natas, se calhar o limão pode azedar a nata… Já sei, bebes já um leitinho a ferver com duas colheres de mel e raspa de alho e logo ao deitar bebes o chá e pões pomada no peitinho!”.
A avó que estava a ver televisão com um olho aberto e outro fechado, afundada no cadeirão algures entre mantas com o aquecedor aos pés, corta a decisão da filha com uma voz de quem ainda está a duas horas de acordar: “Não faças nada disso! Esses são os das anginas e o que o cachopo tem é gosma! Parece que tá parva! Vapores, o que o João Carlos precisa é de vapores por causa da asma!”.
A D.Odete, vizinha do 3.º frente que tinha ido lá a casa devolver a batedeira, mete-se na conversa em boa hora, por não só acalmar os ânimos, como também contribui com a sua sabedoria:”Oh Fátima, olha que a tua mãe tem razão, mas tu também não deixas de ter…fazemos tudo! vai acabar o jantar que eu arranjo o leitinho e logo dás-lhe o chá, fazes os vapores e no fim rematas com a pomada!”. Ao sinal afirmativo da mãe do João Carlos (que tem 12 anos), a vizinha dá-lhe umas festinhas no cabelo, um beijinho na testa e leva-o para o quarto como se o menino estivesse mal das pernas! “Anda meu querido, consegues andar amor?”, “Sim, sim, só tenho dores de garganta!”, responde meio envergonhado e confuso!
Assim que o deita na cama e o tapa com todos os cobertores que encontra no roupeiro do corredor, voa para cozinha, prepara o leite em menos de um minuto e quando está mesmo a sair da cozinha pára à porta e insiste: “Fátima, põe só umas pinguinhas de limão!”. “O que é que isso tem na mistura?” pergunta interessada. “Só tem leite e mel, isto assim não lhe faz nada, pá!”.
A mãe pensa por uns breves instantes e faz uma última pergunta: “Viste se ele tinha febre?”. Com um misto de euforia e ansiedade na voz por estar quase a convencê-la responde-lhe:”Opá tinha!”. “Então põe umas gotas!”. A D.Odete nem pensa duas vezes, pega num limão enorme, mete-o à torneira debaixo de água quente “para desprender o sumo”, corta-o ao meio e aperta-o com toda a força que tem para o espremer até à última gota! Ainda mergulha a casca no leite antes de sair! Dá asas aos pés e aparece no quarto de copo na mão, feliz com a sua prestação de bondade e conhecimento.
O João que até nem estava assim tão mal, agora pensa entre vómitos e leite coalhado que ainda tem um prato de massa de atum com natas para comer.
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