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Médicos do Domicílio

Lemon.jpgNão há senhora que se preze que não conheça meia dúzia de remédios caseiros que arrumam qualquer clínica hospitalar a um canto! “Mãe, estou com dores de garganta!”. Esta, assume imediatamente um ar sério, aconchega o polegar ao queixo, estica o indicador até à ponta do nariz, direcciona o olhar para um ponto algures entre o rodapé superior e o tecto e começa a pensar alto:

“Tens que beber chá de menta com…duas colheres de mel e meio limão espremido, só não sei se também ponha as cascas? Mas se calhar ponho as cascas porque assim atacamos já o vírus... Bem, mas o jantar é daqui a meia hora e como é massa de atum com natas, se calhar o limão pode azedar a nata… Já sei, bebes já um leitinho a ferver com duas colheres de mel e raspa de alho e logo ao deitar bebes o chá e pões pomada no peitinho!”.

A avó que estava a ver televisão com um olho aberto e outro fechado, afundada no cadeirão algures entre mantas com o aquecedor aos pés, corta a decisão da filha com uma voz de quem ainda está a duas horas de acordar: “Não faças nada disso! Esses são os das anginas e o que o cachopo tem é gosma! Parece que tá parva! Vapores, o que o João Carlos precisa é de vapores por causa da asma!”.

A D.Odete, vizinha do 3.º frente que tinha ido lá a casa devolver a batedeira, mete-se na conversa em boa hora, por não só acalmar os ânimos, como também contribui com a sua sabedoria:”Oh Fátima, olha que a tua mãe tem razão, mas tu também não deixas de ter…fazemos tudo! vai acabar o jantar que eu arranjo o leitinho e logo dás-lhe o chá, fazes os vapores e no fim rematas com a pomada!”. Ao sinal afirmativo da mãe do João Carlos (que tem 12 anos), a vizinha dá-lhe umas festinhas no cabelo, um beijinho na testa e leva-o para o quarto como se o menino estivesse mal das pernas! “Anda meu querido, consegues andar amor?”, “Sim, sim, só tenho dores de garganta!”, responde meio envergonhado e confuso!

Assim que o deita na cama e o tapa com todos os cobertores que encontra no roupeiro do corredor, voa para cozinha, prepara o leite em menos de um minuto e quando está mesmo a sair da cozinha pára à porta e insiste: “Fátima, põe só umas pinguinhas de limão!”. “O que é que isso tem na mistura?” pergunta interessada. “Só tem leite e mel, isto assim não lhe faz nada, pá!”.

A mãe pensa por uns breves instantes e faz uma última pergunta: “Viste se ele tinha febre?”. Com um misto de euforia e ansiedade na voz por estar quase a convencê-la responde-lhe:”Opá tinha!”. “Então põe umas gotas!”. A D.Odete nem pensa duas vezes, pega num limão enorme, mete-o à torneira debaixo de água quente “para desprender o sumo”, corta-o ao meio e aperta-o com toda a força que tem para o espremer até à última gota! Ainda mergulha a casca no leite antes de sair! Dá asas aos pés e aparece no quarto de copo na mão, feliz com a sua prestação de bondade e conhecimento.

O João que até nem estava assim tão mal, agora pensa entre vómitos e leite coalhado que ainda tem um prato de massa de atum com natas para comer.

[tags] Portugal, clínicas, hospitalar, remédios caseiros, comportamentos [/tags]

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