Rostos da Crise

Quando ouvimos falar de estatísticas, valores médios disto e daquilo, ficamos com uma ideia geral do que se passa, mas mesmo assim, ainda nos parece que é “lá longe”… é qualquer coisa horrível que se passa por aqui e por ali.

Sentimos os gráficos como quem toma consciência de um novo vírus terrível que há-de matar muita gente, mas que de algum modo não nos há-de afectar a nós, ou pelo menos, o nosso instinto de defesa remeter-nos-á para esta esperança que ainda vai sendo o combustível que nos faz acordar a cada dia e sorrir como nada se passasse.

Mas quando um menino nos diz que o seu presente de aniversário vai ser o computador Magalhães (e eu até sei que naquele caso foi gratuito), nesse momento, percebemos o quão difícil deve ter sido para aqueles pais, oferecerem ao filho, algo que também lhes foi oferecido e apenas isso.

Quando olhamos para uma turma de meninos e meninas, quase todos oriundos da classe média e reparamos que num espaço de 2 anos as roupas de marca estão a ser usadas pelos irmãos mais novos e que os mais velhos só puderam renovar o guarda-roupa com peças de um dos três bazares chineses que existem aqui na vila e até o calçado é todo em plástico, já para não falar  no material escolar que vai escasseando nas mochilas, nestes momentos, a crise ganha novos rostos.

Quando as mães já não escondem o medo de virem a viver o pavor de verem os filhos a serem-lhes retirados pela protecção de menores por falta de condições financeiras, a crise não só ganha novos rostos, como sensações que ninguém quer ter.

Quando num anúncio se pode ler “Urgente” e alguém tenta vender um T1 semi-novo completamente mobilado, com automóvel Renault Clio incluído, por 70 000,00, é quando as estatísticas se humanizam e tornam perceptível o seu lado mais negro.

Quando tentamos comprar queijo típicos portugueses e nos sai mais barato comprar os queijos franceses, sentimos embaraço e uma certa revolta.

Quando as famílias têm que arrendar as suas casas, para não as perderem e se vêem forçadas a partilhar a habitação dos pais ou sogros, e quando ainda por cima todo este constrangimento se traduz no desmembramento das famílias que até costumavam ser felizes… nestes casos, só não se nega a Pátria porque a má gestão não merece essa importância.

Há dias em que me sinto mais Jus Indignatus do que Amar-Ela.

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